Sexta-feira, Novembro 13, 2009


futura













Quarta-feira, Setembro 23, 2009


desliguei o céu por um instante
perfurei a película e senti
escorrer-me pelo braço o líquido
que cola os dias

tenho as manhãs coladas às noites
um calendário muito magrinho

Segunda-feira, Setembro 21, 2009


conta-me. os voos amortecidos na pele áspera
não me incomodam. incomodam-me as horas rasteiras que se esfregam em mim com violência. o atrito. claro que um sorriso teu, um chamar, tudo muda. abre-me uma caixa no peito maior que a nossa casa. estou aqui, inteira, tua, são teus todos os meus gestos. não sei onde os guardas. és tão pequenino. maior que eu.

Sábado, Setembro 19, 2009


ando aos poucos a deixar-me de coisas
não é fácil vestir roupa sem bolsos. fico sem saber o que fazer com as mãos
as minhas mãos sempre foram âncoras. faz-me impressão vê-las velas
enfu nadas

Terça-feira, Agosto 18, 2009


onde andas?
red onda.

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009


read my lips
no meu corpo rasgam-se bocas em sítios improváveis.













Quinta-feira, Novembro 27, 2008

pimp myspace with Gickr

fora de foco

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Sexta-feira, Setembro 26, 2008


contra-luz

Terça-feira, Agosto 19, 2008


cinemática linguístico-estática
os sentidos apurados para a distância. percorrer muitas páginas e saber que faltam outras. tantas. a estrada a desfazer-se em quilómetros que parecem vomitar mais quilómetros. ainda. dizer com as mesmas palavras, mesmo não sendo as palavras as mesmas. é isto que faço aqui sentada.

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

Sábado, Agosto 09, 2008

Sexta-feira, Julho 25, 2008


dedos de cal pintada
sopram beijos alcalinos
muros como camas
comportas
o sol branco ainda quente
nas minhas costas

Quarta-feira, Julho 23, 2008


estio

asas de cigarra
preenchem-me os dias sem fumo
a cabeça pende-me de pura dolência
não fosse o crepitar debaixo dos pés
seria
inteira
sonâmbula
assomada pelo fogo

assim deixo-me ir
do tamanho das folhas
protegida por sombras acidentais

Segunda-feira, Junho 30, 2008


há pessoas que sabem ler de dentro para fora. pessoas que não precisam de palavras como escoras. peguei neste teu poema e fechei-o novamente na caixa. abri-lo-ei de novo quando me apetecer rir e chorar ao mesmo tempo. ver-me por dentro sem vomitar.


obrigada, c.

Terça-feira, Junho 17, 2008


traduttore traditore
e, na espera, entre duas respirações, dobrei-me em asas de papel. o silêncio a pesar-me nas pálpebras, mas o fio da história a picar-me todos os poros, cosendo inutilmente palavras à minha memória externa. não sei por que razão não consigo lembrar-me dos filmes como as outras pessoas. uma ou duas imagens, por vezes só um sent ir.

Sexta-feira, Maio 16, 2008


perfur ar
acordava redonda e invisível. sem arestas. sem peso. os amigos reconheciam-na por um ou outro reflexo, se a luz por acaso incidia sobre ela no ângulo certo. bastava um sopro, uma intenção, um entreabrir de lábios. tarde de mais.

Quarta-feira, Maio 14, 2008


para a frente
trevos e azedas debaixo dos pés
um
pouco mais que pele como bandeira
dois
um, dois
um

Terça-feira, Maio 06, 2008


wonderful town
isto passou-se em lisboa. um homem com pés de pássaro passou por mim na rua. levava um vaso com uma orquídea branca muito alta que lhe indicava o caminho. segurava o vaso com as duas mãos. ainda não o sabia, mas deixara o porta-chaves esquecido em cima do balcão da loja, na atribulação do multibanco, da hora tardia, das redes saturadas. a loja estava a fechar quando entrou decidido a levar a orquídea branca e a empregada fizera o especial favor de atender aquela urgência. teria de tocar à campainha ou chamar os bombeiros para lhe arrombarem a porta. atravessava a estrada, numa rua perpendicular à minha, no momento em que o meu sinal mudou para verde, mas não apareceu no retrovisor. eu vinha do cinema. ele ia nessa direcção.

Terça-feira, Abril 01, 2008


e tocar-te assim com vidro de permeio.
beijar-te os cristais de açúcar que trazes presos nos olhos
pousa quando quiseres no meu para
                      peito. estarei sempre pronta para a fotografia

Domingo, Março 09, 2008


azul

quando mudei de casa
levei comigo o meu cão de loiça à escala
de encontro ao peito, para não partir
descobri que tem orelhas como búzios
cheias de um mar refém

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008


a excepção

para a a. (uns segundos depois)

e agora voo

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008




deixo este ramo por alguns instantes. tem mesmo de ser. fica a minha contribuição para a milk+wodka a fazer companhia a quem por aqui tropece. esta não é aversão a versão final.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008


de aveiro para o porto, a partir de hoje, na maria vai com as outras

*Iniciativa e selecção dos poemas
Mercado Negro (Aveiro)

*Design e ilustrações
Menina Limão

*Textos de:

*c-asa (carolina rodrigues) em A Casa Imaginada
*a.m. em A Imitação dos Dias
*margarete em Acknowledge (Or Whatever) Thyself
*nocturnidade (cláudia ferreira) em Agulha
*marta em Do Avesso
*martinha. (marta poiares) em Entre Linhas
*r. (rute mota) em Esta Distância Que Nos Une
*eyes shut em Eyes Shut
*gato legível em Gato Legível
*saturnine (raquel costa) em Little Black Spot
*pedro. em Loose Lips Sink Ships
*happy and bleeding em Morrer de Improviso
*mb em Musas Esqueléticas
*aida monteiro em O Perfil das Casas, O Canto das Cigarras
*hugo em Solvstäg
*o peixe que queria ser um tira linhas (rita alberto) em Tampadecaneta
*ana filipa gonçalves em Tarte de Rabanete
*clAud (cláudia caetano) em Tempo Dual
*lebre do arrozal (maria sousa) em There’s Only 1 Alice
*tratado de botânica (joana serrado) em Tratado de Botânica
*papel químico em Triplicado

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008


presa às palavras inversas que arrancaram do papel
a tinta preta, já gasta, com sangue diluído em céu

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008


guardo contornos nos bolsos
rolinhos de linha que não cosi à pele
são como contornos de nuvens: coelho, cisne, cavalo, castelo
lavo-os na máquina a 30º (para não encolherem)
e uso sempre amaciador

insuflado beijo que materializa a sombra
asas camufladas no instante do desejo

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008



não aprender

tesouras, elefantes e borboletas
sons que perfuram gavetas
patadas de pó, florestas
poisos de luz insinuam-se nas frestas
não tapar, não abrir, não fechar

um livro em cima da cabeça
não cai nem quando tem pressa

os cavalos a correr

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

já venho!


sull'orlo della sera


Segunda-feira, Janeiro 14, 2008


atrás do sol
prometeu-me um sinal todas as noites, um clarão, um risco no céu, um acender, um apagar. para que não restassem dúvidas apareceu-me à janela e aqueceu-me os ombros e o rosto. depois afastou-se, caminhando de costas, com os olhos presos aos meus como dois feixes de luz. fiquei ali plantada, ganhando raízes que se entranharam pelas frestas dos mosaicos, pelos tijolos, pelas tubagens, calcorreando paredes em busca de solo, de outras raízes, desviando-se de alicerces e de lençóis freáticos, correndo mais depressa que as horas do dia, mais ardentes que o próprio núcleo da terra, até chegar ao outro lado do mundo. e, no entanto.



para a *

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

video

haiku

no fio
o frio
a nu

Domingo, Janeiro 06, 2008


desdobrou-se em camadas finas como folhas e meteu-se no forno. eléctrico. saiu inteiro, soldado, preso por pinças, acabado. pronto. à sua espera uma fanfarra de instrumentos. bons e maus condutores de corrente. na única boca que desejava sucumbiu ao peso dos dentes, às voltas da língua. como uma ave que pousa num ramo mais leve que o seu próprio corpo.

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007


um casaco de inverno, uma segunda pele, grosso como a casca de um carvalho velho, permeável como o leito de um rio sempre novo. aprendi a enrolá-lo como um xaile, um turbante para a alma que me aquece e areja o lugar onde se cozinham as dores e se afinam os mecanismos do riso. tecnologia de ponta esta teia e esta trama quente e fria ao mesmo tempo, sem regulador de intensidade. sempre presente.

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007


neste natal...
esticar o pescoço e olhar para as estrelas, mesmo que não se mostrem

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

ontem, enquanto dormia,
perdia a vida

eu não acordei àquela hora

hoje a ausência é a mesma
mas muito mais escavada no peito

.

preferia não te ver nunca mais
a ter de ver-te pela última vez

Terça-feira, Dezembro 18, 2007


o monstro sorridente da segunda circular
esgueirou-se pelas falhas da fita cola. encheu as órbitas de autocolantes, dois planetas sem espessura. fez sua a pele que lhe amarfanhava os gestos. pôs o seu melhor sorriso e desafiou os seres parados. amanhã, quem sabe, viajará num forro rasgado, num estofo coçado, num sonho estafado. procura-se músculo invisível, monstro que se entranha entre o osso e a pele.

Terça-feira, Dezembro 04, 2007


obs.
o caminho faz uma curva em cotovelo muito comprida. é mais fácil atalhar pelo meio da terra e subir depositando alternadamente o peso nos degraus improvisados pelas raízes expostas. os jardineiros que se amanhem. as minhas calças são azuis, não verdes. pensava que ninguém o via e no entanto. ao chegar lá acima sacudiu os pés e seguiu pelo chão empedrado.

um salgueiro
para c.

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Terça-feira, Novembro 13, 2007


video

trovoada

Segunda-feira, Novembro 05, 2007


soltou-se da boca presa ao pé
o dente de leão
subiu pela teia soprado pelo tempo
sem vento
seria

Quarta-feira, Outubro 31, 2007


e, na urgência da linha, esticou-se, em pontas, espreguiçou-se. depois baixou-se e descalçou-se. percorreu-a em sentido inverso, saboreando cada corpo de cada letra com a planta dos pés. seixos que tocavam todos os pontos do seu próprio corpo. os sons lambendo-lhe o cansaço como um rio em sentido contrário. um dia aprenderia a ler com a pele.

Segunda-feira, Outubro 29, 2007


a deus

viva
no verso da sombra
no terço do dia
descubro
outras metades

Segunda-feira, Outubro 15, 2007


apneia

olha
o reflexo no lado de dentro das minhas pálpebras
os dias liquefeitos e povoados por polvos
estradas sem curvas
corpos sem estradas
mãos amputadas de tinta
ideias amputadas de mãos
e, do lado de fora,
o ar que preenche o resto dos dias
corpos inteiros
de pulmões cheios




imagem: fotograma do filme "wide awake" de alan berliner

Quinta-feira, Outubro 11, 2007


com um golpe de asa
cortaste-me, temperaste-me,
sorveste-me, serviste-me
uvas lavadas na água da chuva
e disseste-me
que as asas molhadas
também engolem a distância

Quarta-feira, Outubro 10, 2007


here comes the sun
um beijo no umbigo do dia

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

campainha
vou escrever muitas vezes a mesma frase à mão
fechar fonemas à chave num papel
e arquivá-lo entre duas teclas
volto já

Segunda-feira, Setembro 17, 2007


obs.
há um homem que se cruza no meu caminho todos os dias em sítios improváveis. tem um andar rápido, decidido, e um olhar de quem já chegou antes das pernas e descansa à espera que o corpo se junte a ele. geralmente vejo-o na estrada das vinte e oito oliveiras. uma recta comprida, sem passeio, com vinte e oito árvores velhas e raquíticas, sem o brilho lustroso das centenárias que plantam nas rotundas. estas, pelo contrário, parecem crescer sobre o muro de pedra, sem terra que lhes alimente as raízes. será certamente uma ilusão de óptica provocada pela diferença de cota do terreno por detrás do muro. o homem tem um ombro ligeiramente descaído.

Sexta-feira, Setembro 14, 2007



são muitos os canais da esperança
uns secos e quebradiços, estreitos
outros largos e cheios de ar, túneis de vento

atrevo-me a ser seiva e abrir pelas veredas tortas
madeira morta, branca, que o mar cuspiu para terra

Terça-feira, Setembro 11, 2007

arritmias

Segunda-feira, Setembro 10, 2007


tenho um coração externo que pulsa se o outro pára
a minha vida é como uma corrida de estafetas
arranco ritmos a pedras, paus, sombras e sopros
arritmias controladas

Domingo, Setembro 09, 2007


faz hoje anos que o mundo é mundo

pelo menos para mim

Sábado, Setembro 08, 2007



*patente na associação cultural Mercado Negro, em Aveiro, até 19 de Outubro.
3ª a Sábado: 13h - 00h
Domingo: 15h - 00h
R. João Mendonça, 17
3800-200 Aveiro

*Selecção dos poemas
Mercado Negro

*Design e ilustrações
Menina Limão

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

Quinta-feira, Agosto 30, 2007


ofereceram-me um avental para a alma. faltam-me as luvas para abrir o forno.

Segunda-feira, Agosto 27, 2007


escrevi-te uma carta. desenhei todas as letras de cada palavra sem levantar a caneta do papel (os tês e os is não contam). fechei o sobrescrito. agora têm umas tiras autocolantes e o valor do selo já impresso. saí com um vazio nas mãos, um buraco no sítio dos gestos sem peso. tapei-o com a senha da minha vez. sou a seguir.

Sábado, Agosto 11, 2007


como é que era mesmo? duas voltas para a direita, não, duas voltas para a esquerda. tonta, tonta. tocaste-me na ponta do nariz. o choque. ligada à terra com a chave na mão, sou condutora de electrões. é entrar, é entrar. cuidado com as correntes de ar.

Sexta-feira, Agosto 03, 2007


raízes de flores comestíveis
entra. o universo não tem porta.
estava a fazer uma salada. queres?


[para r.]

Terça-feira, Julho 17, 2007


estiquei o braço e toquei na estrada. estava quente.

Segunda-feira, Julho 16, 2007


ia distraída a olhar para o chão como sempre. naquele dia o sol nasceu-me aos pés. teimosa a vida rebenta-me na cara, não se insinua em imagens de calendário. flores que despontam, árvores despidas. gelo e orvalho.
?